Pancreatite é uma inflamação do pâncreas que pode ser aguda (poucas semanas, podendo ser leve e geralmente auto-limitada ou grave podendo ter complicações, envolver outros órgãos e causar a morte) ou crônica.
Pancreatite aguda tem alta incidência de atendimento hospitalar pelo quadro doloroso, sendo a segunda causa de hospitalização mesmo que geralmente seja na forma não fatal. A pancreatite aguda leve é intersticial e tem edema, é auto-limitada. A grave causa necrose pancreática, disseminação generalizada de enzimas pancreáticas com subsequente comprometimento de outros órgãos.
As principais causas incluem litíase biliar (~40%) em que a obstrução mecânica da ampola de Vater pelo cálculo ou inflamação da via biliar acaba impedindo a drenagem, o álcool, hipertrigliceridemia (3ª principal causa, a patogênese da ação sobre as células pancreáticas é desconhecida), algumas drogas, medicamentos e toxinas (retirar o fármaco e, após melhora, rechallenge, administrando novamente para checar se a pancreatite reaparece), traumas, algumas causas metabólicas e infecciosas, cirurgias, CPRE, parasitoses (ascaris), divertículos , e outros.
Muitas das pancreatites idiopáticas são causadas por lama biliar, uma bile tão espessa que acaba gerando um quadro similar ao do quadro, comum em jejum prolongado ou alimentação parenteral prolongada.
Algumas malformações favorecem a pancreatite, como o pâncreas divisum completo (sem comunicação dos ductos) ou incompleto (ductos se comunicam) em que os brotos pancreáticos não se fundiram como deveriam, dificultando a drenagem.
A segunda principal causa da pancreatite aguda é o etilismo, possivelmente pelo estresse oxidativo do acetaldeído sobre as células pancreáticas, mas o mecanismo não está completamente elucidado.
Na fisiopatologia, a primeira fase consiste da ativação precoce do tripsinogênio, levando a complicações intra e posteriormente extra-hepáticas.
Clínica com dor abdominal (principal queixa), náuseas e vômitos, íleo paralítico, sinal de Cullen, sinais de Grey-Turner, icterícia e possíveis úlceras pelos vômitos recorrentes.
Complicações com choque tem taquicardia arterial, insuficiência respiratória com hipoxemia, insuficiência renal com necrose tubular aguda.
Laboratório não são exames de gravidade, são exames para diagnóstico, incluem a amilase sérica (sensível, não necessariamente específica, podendo ser problemas salivares), lipase (bem específica de pancreatite, mas demora para subir e é menos disponível), hemograma, Na, K, Mg, cálcio, ureia e creatinina, glicemia, DHL, enzimas hepáticas, gasometria arterial.
Exames de imagem com USG (para checar cálculos biliares), TC, preferencialmente com contraste (aumento do volume do pâncreas, edema, parênquima heterogêneo, inflamação e coleções, necrose hepática, pode ser pedida somente em caso de piora ou quadros graves) e RNM.
Critério de Balthazar dependo da TC indo de A-E, pode ser somado ao escore de necrose para determinar gravidade.
Critério de Ranson é antigo, mas é rápido e fácil, checando idade, leucograma, glicemia, DHL, AST na admissão e queda de Ht, ureia, Ca, PaO2, déficit de base e sequestro líquido em 48 horas da admissão. O critério de Apache e usado por intensivistas sem dedicação à pancreatite, checando questões fisiologias, idade e comorbidades para determinar gravidade.
Atlanta determina gravidade somando as informações de Ranson, APACHE e alguns critérios adicionais.
Pancreatite aguda é tratada com repouso alimentar (nutrição enteral ou parenteral se não houver movimentos), hidratação venosa, analgesia (evitando morfina, no entanto há poucas evidências sobre sua suposta contração no esfíncter de Oddi), inibidores da secreção pancreática (somatostatina) e antibióticos (somente naqueles em necrose com infecção).
Pancreatite crônica com necrose glandular difusa com lesões que persistem mesmo com retirada do fator causal, que, na maior parte das vezes, é o álcool. A versão calcificante com fibrose lobular e difusa e a obstrutiva com obstrução parcial.
Há também a pancreatite hereditária como uma doença autossômica dominante com ativação precoce de zimogênio via tripsina. Geralmente afeta toda a glândula e tem histórico familiar.
Pancreatite crônica nutricional por dietas ricos em carboidratos, muitas vezes com glicosídeo possivelmente tóxicos ao pâncreas (em raizes como a mandioca). A doença conta com dor abdominal, diabetes e hipertrofia bilateral das parótidas.
Pancreatite crônica também pode ser por hiperparatireoidismo, idiopática, obstrução em esfíncter de Oddi (potencialmente pós-cirúrgico ou após CPRE), geralmente sem levar a insuficiência exócrinas ou endócrinas, causas auto-imunes.
Quadro com dor em andar superior de abdome, possivelmente crônica e frequente ou crises após ingestão de álcool ou gordura, emagrecimento (anorexia na dor, receio de comer, má-absorção e diabetes, complicações e doenças), insuficiência endócrina (rara) ou exócrina (mais comum e dificultando a absorção)