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Mary Ellen Wilson

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Violência Infantil: Diagnóstico, Abordagem e Enfrentamento
Contexto Geral e Definição
- A violência infantil, particularmente de natureza intrafamiliar e doméstica, é uma manifestação grave de abuso físico, psicológico e, por vezes, sexual contra crianças e adolescentes, comumente praticada por parentes ou conviventes próximos, como pais, padrastos, familiares ou outros responsáveis.
- Essa violência é considerada uma doença crônica e progressiva, com consequências intergeracionais que geram danos físicos e psicológicos duradouros, com alto potencial de persistir por gerações se não interrompida por diagnóstico e tratamento eficazes.
- Violência física intencional é categorizada no CID com os códigos T74 e X85-Y09, destacando-se como um trauma com necessidade de atenção prioritária.
1. Diagnóstico Clínico e Sinais de Abuso
- Anamnese e Observação dos Sinais Clínicos:
- Contradições nos relatos sobre o trauma entre os responsáveis e a vítima, ou entre os próprios cuidadores, gerando inconsistências na história contada.
- Mudanças no relato ao longo da conversa com os profissionais de saúde podem indicar que há ocultação de fatos.
- Atraso injustificado entre a ocorrência do suposto “acidente” e a procura por atendimento médico levanta suspeitas.
- Históricos de lesões recorrentes e de traumas sucessivos, com ausência de fatores que justifiquem tal frequência, são indicativos.
- Lesões em locais geralmente protegidos ou cobertos, como pescoço, genitálias e partes internas de membros, que não condizem com traumas acidentais.
- Lesões Externas e Suas Características:
- Lesões como eritemas, hematomas e lacerações, em diferentes estágios de cicatrização, indicam episódios repetidos de violência.
- Queimaduras de forma circular ou características de cigarros e lesões que demonstram uso de instrumentos como chinelos, cintos, fios e unhas são especialmente reveladoras.
- Lesões na face, afetando múltiplas regiões como os olhos e a boca, lesões simétricas e lesões em padrões específicos (como queimaduras em “luva” ou “meia”) sugerem claramente a violência.
- Queimaduras de líquidos quentes que não seguem padrões naturais, como por derramamento, também são sugestivas de intencionalidade.
2. Avaliação Radiológica e Lesões Internas
- Lesões Ósseas Clássicas:
- Fraturas múltiplas, bilaterais ou localizadas em diversos segmentos do corpo, em diferentes fases de cicatrização, são comuns em vítimas de abuso físico.
- Fraturas metafisárias com aparência de "alça de balde" e fraturas que indicam avulsão de fragmentos ósseos nos ângulos das extremidades são evidências de violência.
- Outras fraturas como as de costelas (principalmente posteriores), escápula, esterno e fraturas complexas de crânio, frequentemente não associadas a traumas acidentais, indicam agressão intencional.
- Lesões Viscerais e Hemorragias:
- Danos a órgãos internos, como lacerações no fígado e no baço, podem causar hemorragias graves, além de danos ao pâncreas e obstrução intestinal por hematomas, sendo todos sinais críticos de trauma físico intencional.
- Lesões no mesentério e hemorragias intratorácicas, incluindo pulmonares e cardíacas, apontam para a gravidade da violência física.
- Síndrome do Bebê Sacudido:
- Caracterizada por lesões neurológicas e hematomas subdurais causados pelo ato de sacudir a criança, a Síndrome do Bebê Sacudido é identificada por sinais específicos, como hemorragias retinianas e fraturas costais.
- Este tipo de violência leva ao comprometimento neurológico grave e, muitas vezes, a sequelas irreversíveis, representando um caso extremo de violência física intencional contra crianças.
3. Violência Intrafamiliar e Doméstica: Desafios e Implicações Diagnósticas
- Definição e Contextualização:
- Violência intrafamiliar é cometida por pessoas ligadas à criança por laços de sangue, convivência ou responsabilidade. Já a violência doméstica inclui qualquer coabitante com maior poder ou maturidade, que utiliza sua posição para agredir.
- Apesar do impacto severo na infância e adolescência, essa violência ainda não é tratada adequadamente nas avaliações pediátricas de rotina, independentemente de etnia, classe social ou cultural.
- Idealização Familiar e Barreiras de Diagnóstico:
- A imagem idealizada dos pais e responsáveis pode tornar difícil para profissionais de saúde reconhecerem indícios de abuso e maus-tratos.
- Em muitos casos, sintomas psíquicos e comportamentais são atribuídos a causas orgânicas, como problemas neurológicos ou psiquiátricos, ignorando-se a possibilidade de abuso.